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Domingo, 13.08.17 às 00:00

Afazeres domésticos aumentariam o PIB do Brasil em 11%

Liza Mirella
Guilherme Baffi 10/8/2017 GUI_2155_WEB
Dayane Riquette e os filhos, Adelle, de menos de um mês, e Mikael, de 7 anos: a dona de casa tem rotina puxada com os cuidados com o lar e a família

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Guilherme Baffi 10/8/2017 GUI_2155_WEB
Dayane Riquette e os filhos, Adelle, de menos de um mês, e Mikael, de 7 anos: a dona de casa tem rotina puxada com os cuidados com o lar e a família

Dayane acorda as 6 horas e só dorme à meia-noite. Praticamente a totalidade das horas é dedicada aos afazeres domésticos e cuidado com os filhos. A rio-pretense Dayane Mikele Correa Franco Riquette, 30 anos, é dona de casa, casada, tem dois filhos e uma rotina diária puxada. Tudo começa com o preparo do café da manhã. Em seguida, leva Mikael, o filho de sete anos, à escola. Na volta, lava roupa, passa e prepara o almoço, que precisa estar pronto às 11h30.

Almoço servido, é hora de lavar louça, ajudar na tarefa do filho, brincar com ele e ainda fazer a limpeza da casa. Sem contar a preparação do jantar. E, há pouco menos de mês, a vida ficou mais corrida – e muito mais feliz – com a chegada de Adelle, que faz seu primeiro “mesversário” no dia 29.

Se o trabalho que Dayane e tantas outras mulheres fazem em casa fosse "contabilizado", seria responsável por aumentar o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 11%.

A projeção faz parte do estudo da economista e pesquisadora da Universidade Federal Fluminense, Hildete Pereira de Melo, com Cláudio Monteiro Considera e Alberto Di Sabbato. Em dez anos – de 2001 a 2011 – segundo o estudo, os afazeres domésticos foram valorados, em média, em 11,4% do PIB. Considerando-se o PIB nacional de 2012 (R$ 4,4 trilhões), isto representaria R$ 501,9 bilhões. Em dez anos, o valor seria R$ 5,01 trilhões. Os cálculos consideram o salário das empregadas domésticas, o mais baixo das remunerações femininas. "O que se quer dizer é que as mulheres agregam 11% do PIB com o trabalho invisível," explica Hildete.

Dayane conta que fez a escolha de cuidar da casa e dos filhos com o marido, Marcus Riquette, 32 anos, entregador de água e gás. Além disso tudo, ela também apoia os pais, já mais velhos, na hora das compras, de pagar as contas da casa e de outras necessidades do cotidiano. "É uma correria todos os dias. Sempre tem serviço, nunca acaba. Você para porque decide parar mesmo", afirma.

Apesar da rotina intensa, Dayane é feliz em sua escolha e conta com a parceria do marido na manutenção da casa. Ele divide as tarefas com a bebê, como acordar de madrugada, trocar fraldas, dar banho. E, quando está de folga, é ele quem cozinha e limpa a casa. Perguntada se seu trabalho é reconhecido, Dayane diz que pelo marido, sim, mas que já se cansou de ouvir comentários do tipo "é bom ser você, você não faz nada". Dá para ver que não é bem assim.

Dayane também fez cursos na área de corte e costura e quando o bebê crescer ela pretende trabalhar com isso, em casa, para ter seu próprio horário e continuar perto das crianças.

Segundo Hildete, cujo estudo tem como base a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de horas que as mulheres levam para cuidar da casa é mais do que o dobro do que os homens. "Em média, as mulheres gastam 26 horas por semana, já os homens, dez."

Considerando, pelo estudo, que o número de horas trabalhadas pelas mulheres é de 2,5 vezes a dos homens e que o número de mulheres empenhadas em afazeres domésticos é duas vezes o número de homens, o PIB gerado por elas em dez anos é cinco vezes maior do que o gerado pelos homens e equivale a 83,5% dos dez anos de PIB que monetariamente seria de R$ 4,1 trilhões, valor quase igual ao PIB de 2012.

Medição

Essa situação de falta de valor deve mudar. É que o IBGE pretende medir o tempo gasto pelas famílias com os afazeres domésticos, no chamado PIB da Vassoura. A expectativa é de que a coleta de dados ocorra entre 2019 e 2020, mas como o projeto é embrionário, ainda não se tem detalhes da metodologia, explica o instituto.

A pesquisa do uso do tempo vai incluir, além das questões relativas à produção dos serviços para autoconsumo, outros aspectos como descolamento e lazer, para medir a qualidade de vida da população. A forma como seria agregado ao cálculo do PIB, ainda não se sabe, pode ser que entre na categoria de serviços.

Para Hildete, é fundamental que haja a medição do trabalho desempenhado em sua maioria por mulheres. "Essa medição é significativa porque diz para a mulher que o que ela está fazendo é importante para a vida. Vai mostrar para a dona de casa que ela existe, tirando-a do silêncio", afirma.

MG_6446_WEB Allan Matias e Maytissa Duarte dividem as tarefas de casa e quem chega primeiro do trabalho faz o jantar

Na casa de Maytissa e Allan, serviço doméstico é dividido

Com os novos tempos, mudou também a forma como as casas são mantidas. As famílias já não têm uma estrutura única e hoje são plurais. Dessa forma, o trabalho de cuidar da casa, ou pelo menos em muitas delas, é feito por quem vive nela e não apenas pela mulher. As tarefas tem divisão igualitária ou quase igual.

"Quanto mais novo o casal, menor tende a ser a diferença de tempo dedicado a essas tarefas. É necessário enfatizar a mudança de toda estrutura social dos últimos tempos, a mudança da linha da estrutura do lar, da mulher, o vácuo que surge, e quem assume as tarefas", afirma o economista Bruno Sbrogio.

O economista destaca que a estrutura social ainda cobra mais da mulher questões relacionadas com trabalhos domésticos do que do homem, mas há uma mudança em curso e está ficando menos desigual com o passar do tempo. "A tendência é de que haja homens e mulheres ficando solteiros por mais tempo, com menos filhos. Com menos famílias se formando nos moldes tradicionais, a divisão do trabalho doméstico tende a um individualismo maior, em que cada um será responsável apenas por suas coisas, equalizando a diferença."

Na casa de Maytissa Duarte, 23, e Allan Matos Matias, 23, casados há três anos, as tarefas domésticas são feitas em conjunto ou divididas igualitariamente. Ambos trabalham fora: ela, secretária financeira, ele publicitário. Dessa forma, os horários para cuidar dos afazeres domésticos é pequeno.

Maytissa conta que quem chega primeiro acaba fazendo o jantar para os dois. Normalmente, é Allan quem cuida dessa parte. "Ele faz de tudo, só não passa roupa. E, quando estou de dieta, cuida também do cardápio", ela afirma.

As faxinas pesadas, que incluem a limpeza de paredes, são feitas aos sábados. "Limpamos tudo, tiramos do armário", diz Maytissa. Ela afirma que preferiram não contratar uma faxineira porque o apartamento é pequeno e também para economizar. "Não me sinto sobrecarregada porque dividimos tudo".

IMG_5277_WEB Matheus Ribeiro lava a louça e Adriel Silva prepara o jantar do casal; faxina pesada fica para os fins de semana

Adriel e Matheus cuidam do ‘apê’ juntos

Adriel Silva, 25 anos, e Matheus Aurélio Ribeiro, 22 anos, também dividem as tarefas para a manutenção de casa. Adriel, relações públicas e estudante de ciências políticas, e Matheus, contador, são casados há seis anos e há um moram no apartamento em que compraram juntos.

Normalmente, a rotina dos afazeres domésticos ocorre à noite, depois da chegada do trabalho. "Em geral fazemos juntos esse trabalho, enquanto um lava a louça que restou o outro faz o jantar", afirma Adriel.

Mas o trabalho ainda incluir passar aspirador de pó e um pano para tirar a poeira. Sem contar o cuidado com os dois cachorros, que ganham uma atenção especial.

E, assim como na maior parte das famílias, a limpeza pesada fica para os fins de semana. As idas ao supermercado são uma vez por mês, mas se falta algo, é Matheus quem passa para comprar, já que seus horários são flexíveis. "Tudo é bem dividido, aí não pesa para ninguém".

Os valores do trabalho

  • Os afazeres domésticos, entre 2001 e 2011, foram valorados em média em 11,4% do Produto interno Bruto (PIB) brasileiro
  • Ao se considerar o PIB de 2012, R$ 4,4 trilhões, isto representaria R$ 501,9 bilhões
  • Em dez anos, este valor seria R$ 5,01 trilhões
  • Tendo em vista que o número de horas trabalhadas pelas mulheres em afazeres domésticos é 2,5 vezes a dos homens e que o número de mulheres empenhadas em afazeres domésticos é duas vezes o número de homens, o PIB gerado pelas mulheres durante dez anos é cinco vezes maior do que aquele gerado pelos homens e equivale a 83,5% dos dez anos de PIB, que monetariamente seria de R$ 4,189 trilhões, um valor quase igual ao PIB de 2012
  • As mulheres, em 10 anos, em seus lares, produziram uma quantidade de serviços para nossa sociedade equivalente ao PIB brasileiro anual
  • Fonte - 10 Anos de mensuração dos afazeres domésticos no Brasil, de Hildete Pereira Melo, Cláudio Monteiro Considera e Alberto Di Sabbato

Precificação é importante

Para o economista Bruno Sbrogio, de Rio Preto, colocar um valor no trabalho que é feito em casa é a consequência de uma sociedade que tem a mulher entrando no mercado profissional e com cada vez menos tempo para organizar sua casa.

"Quanto mais ela se dedica fora de casa, mais caro fica o preço de pessoas que podem ajudá-la nesses afazeres. Precificar isso significa mostrar a evolução do valor econômico de uma tarefa que antes era desconsiderada", afirma.

Em Rio Preto, o contingente de empregadas domésticas - e que, portanto, obtém renda com os afazeres domésticos, segundo os últimos dados do sindicato da categoria, está na casa de 20 mil. Mas os números devem ter diminuído em função da nova legislação trabalhista, que fez com que muitos empregadores dispensassem as trabalhadoras registradas.

Para efeito de comparação, Sbrogio compara o preço de um serviço doméstico nos Estados Unidos e no Brasil, o que já mostra que, quanto mais uma sociedade evolui, quanto mais a mulher adentra no mercado de trabalho, maior é o custo que esse trabalho adquire, inclusive com uma profissionalização crescente. "A precificação desse trabalho mostra o quanto é necessário de dedicação para a sustentação de uma família, e o quanto ainda devemos valorizar as pessoas que se dedicaram a isso de forma generosa, mesmo sabendo que não havia retornos financeiros".

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