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Diário da Região

30/08/2015 - 00h00min

Arte obscura e popular

Livro joga luz sobre o faquirismo feminino

Arte obscura e popular

Divulgação Suzi King, a “deusa das serpentes”, uma das mulheres cuja história é retratada no livro
Suzi King, a “deusa das serpentes”, uma das mulheres cuja história é retratada no livro

Aos 8 anos de idade, o cenógrafo rio-pretense Alberto Camarero, hoje com 65, teve uma experiência que o perseguiu até a vida adulta. Levado pelo irmão mais velho, ele assistiu a um curioso espetáculo de uma mulher chamada Verinha, que se exibia dentro de uma urna de vidro, deitada sobre uma cama de pregos, acompanhada de cobras. Bela, de longos cabelos loiros, com trajes azuis que mais lembravam os de uma odalisca, a mulher em questão passava por outra prova severa como parte do seu show: o jejum absoluto. 

"Fiquei impressionado com aquilo. O tempo foi passando e a imagem da mulher permanecia", lembra o cenógrafo, que quando teve a experiência já morava com a família em Campinas. A imagem de Verinha intacta em sua memória impulsionou uma busca incansável por notícias a respeito dela, que começou de forma despretensiosa e resultou no livro "Cravo na Carne: fama e fome - o faquirismo feminino no Brasil". 

 

Livro Cravo na Carne Livro Cravo na Carne: fama e fome - o faquirismo feminino no Brasil

A obra, lançada este mês pela editora Veneta, foi escrita em parceria com o pesquisador Alberto de Oliveira, e conta a trajetória de 11 mulheres que chocaram e seduziram a opinião pública Brasil afora na primeira metade do século 20. As faquiresas arriscavam suas vidas em performances transgressoras, numa época em que bastava a uma mulher optar por carreiras como as de atriz ou cantora para ser alvo de preconceito e moralismo. 

Além de Verinha, Suzy King, Rose Rogé, Zaida, Rossana e Marciana são algumas das que ganharam notoriedade até o final dos anos 1950 e têm suas histórias resgatadas pelo livro. A pesquisa, que durou cerca de três anos, teve como principal fonte jornais e revistas da época, que tratavam as faquiresas como verdadeiras celebridades. 

Uma delas, Otamires, citada na obra, visitou Rio Preto entre o final de 1957 e o início de 1958. Reportagens relatam que ela prometeu jejuar durante 40 dias na cidade, mas fugiu bem antes do final prova, lesando a população local. "São histórias bem interessantes. Algumas são divertidas, outras trágicas. A profissão era meio maldita, muito mal vista na época e está extinta no Brasil desde 1980, quando um homem, o faquir Silki, realizou uma prova de jejum em São Paulo. 

Pretendemos com esse livro resgatar essa arte obscura e esquecida que já foi tão popular por aqui", fala Oliveira. Ele conta que, em 2012, conheceu Camarero e prometeu ajudá-lo em sua busca por Verinha. "A partir daí, conseguimos encontrar reportagens da época a respeito da prova de jejum de Verinha em Campinas e farto material sobre outras faquiresas. Quando percebemos, tínhamos material para um livro", lembra. 

 

Faquiresa Yone e marido, Lokaan Faquiresa mineira Yone deitada na cama de pregos, ao lado do marido, Lokaan, também faquir

Camarero observa que o faquirismo era uma arte circense muito comum no Brasil nas primeiras décadas do século 20, porém, não acontecia sob a lona, mas sim em pavilhões toscos, instalados em locais de grande circulação de pessoas. Muitas das faquiresas começavam sob influência de faquires, sendo suas aprendizes. 

O jejum poderia durar longos períodos - semanas e até meses. O público pagava ingresso para vê-las. No decorrer da pesquisa, o rio-pretense finalmente localizou Verinha, de quem se tornou amigo. Com 80 anos, é a única faquiresa viva a figurar no livro. Hoje, para ela, o assunto é tabu, assim como para a maioria dos familiares das mulheres que trabalharam com essa arte. 

 

 

 

 

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