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Terça-feira, 06.12.16 às 00:00

Editora vai relançar 16 obras de Ferreira Gullar em 2017

Francine Moreno
Lézio Jr. ferreira_gullar
Caricatura de Ferreira Gullar por Lézio Jr.

Dezesseis livros de Ferreira Gullar serão relançados pela editora Companhia das Letras em 2017. A reedição da obra do poeta, ensaísta, crítico de arte, dramaturgo, biógrafo, tradutor e memorialista será uma forma de apresentar o maranhense aos jovens leitores de hoje, a fim de mudar a percepção especialmente daqueles que preferem um tipo de literatura de consumo imediato. Considerado um dos maiores autores brasileiros do século 20, Gullar morreu no domingo, 3, aos 86 anos, vítima de uma pneumonia, e foi enterrado na tarde de segunda-feira, 4, no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

Poema Sujo, clássico de 1976, foi o primeiro a ser reeditado pela Companhia das Letras e ganhou um volume especial. Relançado no início deste ano, o livro foi escrito na Argentina, onde o autor se encontrava exilado. A obra continua atual e deve voltar a ser estudada em sala de aula e usada nos próximos vestibulares, na avaliação de professores de literatura. A publicação testa os limites da linguagem poética 40 anos depois de sua primeira edição.

Arnaldo Franco Júnior, professor de teoria da literatura do Ibilce, conta que Ferreira Gullar nunca foi ignorado nos processos de seleção de novos estudantes nas universidades, no entanto, sua morte e a divulgação na mídia devem gerar mais interesse e impulsionar o nome dele em vestibulares e até em bate-papos entre professores e alunos. “Quando o escritor recebe atenção da imprensa é gerada uma comoção maior entre as pessoas e ele acaba mais solicitado.”

Para o professor, Gullar, agora após sua morte, não pode ser esquecido. Ele foi um dos fundadores do neoconcretismo e fez parte dos fatos mais importantes da poesia brasileira moderna e nos momentos-chave das vanguardas artísticas brasileiras. “Obviamente ele é o mais importante escritor da literatura brasileira contemporânea. Ele tem uma trajetória interessante na poesia dos anos 60, 70 e 80. Sua obra é marcada pela política, cujo grande feito foi Poema Sujo, escrito durante a ditadura militar. Ele fez um trabalho original e importante para a época.”

Para o professor de literatura Pedrinho Acquaroni, apresentar o trabalho de Gullar às novas gerações é uma tarefa árdua, principalmente porque os jovens gostam de publicações momentâneas. “Os adolescentes pouco conhecem a literatura contemporânea. A atual estudada em sala de aula é da geração de escritores de até 1945 e o escritor ganhou a cena a partir de 60. No entanto, ele merece atenção porque teve uma postura política revolucionária e fazia hoje uma análise consciente em crônicas publicadas em jornais na atualidade.” (Três crônicas inéditas de Gullar, segundo a viúva Claudia Ahimsa, serão publicadas nas próximas edições do jornal Folha de São Paulo, onde era colunista).

Ferreira Gullar teve um papel importante na carreira do pesquisador e escritor Romildo Sant’Anna. O poeta nunca veio a Rio Preto, mas serviu de inspiração por meio de seu trabalho como ensaísta no livro Cultura Posta em Questão - Vanguarda e Subdesenvolvimento - Ensaios sobre arte, em que discute temas da cultura brasileira. Foi a partir do livro que Sant’Anna resolveu desenvolver uma pesquisa sobre o primitivista José Antonio da Silva.

Na época, em 1977, o estruturalismo estava na moda, lembra o pesquisador rio-pretense, e Gullar fez uma reflexão mais sociológica da arte em seu livro, buscando uma estética mais compatível com a realidade brasileira daquele momento. “Enquanto os intelectuais focavam na teoria estruturalista, ele fazia diferente e me direcionou para fazer minha tese de doutorado baseado no Silva, que era um pintor naïf fora do circuito do momento. Ele fazia uma poesia militante e inovadora. Acredito que ainda tem muito para influenciar os jovens de hoje.”

A poesia engajada de um imortal

Há dois anos Ferreira Gullar tomava posse como acadêmico na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro. Ele aceitou participar das atividades da ABL após 20 anos de resistência. Antes, o poeta maranhense acreditava que não tinha perfil adequado para fazer parte e ser imortal da Academia. 

André Gomes, professor de literatura da Universidade Federal de Uberlândia, afirma que Gullar merece ser reverenciado depois de sua morte porque, assim como mudou sua opinião sobre a ABL, ele também mudou sua forma de escrever e ver o mundo. 
“Ele surgiu no plano piloto da poesia concreta junto com os irmãos Campos, depois mudou o seu modelo de lidar com a poesia e ficou reconhecido pelo posicionamento crítico e pessoal por meio da arte.”

Segundo o professor, o poeta foi uma pessoa ligada aos comandos de cultura popular de esquerda dos anos 60 de esquerda e depois se tornou um ex-militante do Partido Comunista. “Ele se tornou uma persona non grata pela turma da esquerda. As mudanças ideológicas trouxeram transformações para a forma dele fazer poesia. A poesia mais concreta do início de carreira ficou voltada para um texto de cunho social. Tudo isso pode ser visto no poema instigante Não há Vagas. Ele foi um homem politizado, com uma poesia engajada e representa uma poesia crítica que merece ser debatida.”

O presidente da ABL, Luis Antonio Torelli, afirma que o Brasil perdeu um dos principais personagens da literatura no País. “Na poesia, Gullar participou de grandes momentos e foi um dos responsáveis pela criação do neoconcretismo. O poeta venceu inúmeros prêmios, incluindo o Jabuti pelas obras Resmungos e Em alguma parte alguma. Sua trajetória de vida era refletida em sua obra, que tocava as pessoas.” 

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