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Domingo, 15.01.17 às 00:00 / Atualizado em 14.01.17 às 16:53

Clube da Luta completa 20 anos com edição especial

Beto Carlomagno
Orlandeli Arte - Clube da Luta - 15012017

Poucas obras tiveram o impacto na cultura pop e geraram discussões tão acaloradas como Clube da Luta, de Chuck Palahniuk, primeiro e mais famoso livro do autor que chegou às livrarias em 1996. A obra foi responsável pelo discurso revolucionário reproduzido incansavelmente pela maioria dos jovens do fim da década de 90, início dos anos 2000, especialmente depois de ganhar fama mundial por causa do filme dirigido por David Fincher, lançado em 1999.

Consumismo, patriarcalismo, política, terrorismo, transgressões, Nietzsche, construção do homem, insatisfação constante com a vida e a rotina. Todos esses temas são abordados pelo livro, que permanece tão atual quanto antes, mesmo 20 anos depois do seu lançamento, algo que nem mesmo Palahniuk esperava que acontecesse, como descreve na nota de abertura para a edição de colecionador lançada no fim de 2016 pela editora LeYa em parceira com o Omelete.

O autor compara sua obra e sua forma de escrever com a música punk britânica, em especial as criadas por Billy Idol, músicas que começavam bem pesadas, davam um pique na marca de dois minutos e meio e terminavam de sopetão. “Isso explica por que os capítulos de Clube da Luta são tão curtos, e por que o livro em si termina tão depressa. Escrevi para ser uma coisa que ia ser lida e depois jogada fora. É uma coisa da época que a gente viveu. Todo mundo estava pegando aids e morrendo. Não tinha como um escritor demorar anos e anos num livro.”

É surreal pensar que no primeiro ano do livro nas livrarias ele vendeu menos de 5 mil exemplares, como conta o próprio autor, no prefácio. “Foi um megafracasso. Apesar de tudo, aqui estou. Aqui está o livro. Aqui está você. Um dia eu e você não estaremos aqui. Billy Idol também não. Só vai sobrar o livro. É engraçado ver o que a vida te dá quando você espera o pior.” O pessimismo de Palahniuk também é uma marca registrada em sua escrita. 

Clube da Luta é um tratado sobre o niilismo, a doutrina filosófica do completo pessimismo, da redução ao nada, da não existência. Tyler Durden, um dos protagonistas, é a representação do niilismo, com seu ponto de vista contrário às crenças e aos valores tradicionais. E mesmo com a violência e a afirmação da masculinidade latentes no conteúdo, o livro de Palahniuk foca em temas como a transição de uma cultura de consumo para uma cultura anticonsumista, onde suas coisas não são suas, explica o escritor Alessandro Garcia, fã do autor e de suas obras.

 

Livro Clube da Luta - 15012017 Edição luxuosa para comemorar os 20 anos do livro Clube da Luta

“Os temas subjacentes da rebelião provocaram algo dentro de uma geração que não estava disposta a reverenciar os poderes perniciosos daquilo que estava estabelecido numa cultura tão consumista. Naquele momento de lançamento do livro, havia manifestos contra a globalização, algo que Clube da Luta mergulha profundamente em suas ações de vandalizar as sedes das corporações, os manuais de avião em voo e Tyler Durden e seus amigos detonando edifícios que alojam empresas de cartões de crédito. Era a metáfora para ver o que restava após o colapso da história financeira, na busca de uma proximidade utópica de equilíbrio econômico.”

O discurso contestador foi fundamental para a propagação e para o sucesso de Clube da Luta, afirma o presidente da Academia Brasileira de Escritores de Rio Preto, João Paulo Vani. “A obra foi lançada no momento em que elementos fortes da sociedade americana eram questionados nas artes. Não foi apenas Clube da Luta - livro e filme - que fez isso, mas os filmes Matrix e Beleza Americana vieram na mesma esteira, são da mesma safra.”

Esses problemas enfrentados pela sociedade na época da publicação, como o crescimento do consumismo e a busca desenfreada por um status que refletisse uma imagem que se quer passar e não seu eu real, apenas aumentaram, por isso a relevância da obra até os dias de hoje, garante João Paulo. “Retrata o indivíduo pós-moderno situado na sociedade pós-moderna, na qual o fracasso pode ser visto na posição servil do indivíduo em relação à produção do capital. 

O resultado disso é a criação de valores criados apenas com a finalidade de manter o status quo do indivíduo como o protagonista, cujo vazio existencial é preenchido pelas grifes caras que consome. Essa questão é discutida pelo sociólogo Zygmunt Bauman em O Mal-Estar da Pós-Modernidade.” Mas sua relevância também vai além da temática, garante Alessandro. Para ele, o sucesso constante da obra de Palahniuk pode ser explicado por seu estilo.  

“Ele continua relevante principalmente pela forma com que discute esses assuntos até hoje relevantes, com este verniz de entretenimento e um tema ligado à catarse, que é a violência que permeia toda a obra.” E a obra deve permanecer atual às gerações futuras, “a menos que a sociedade se reinvente e a projeção do indivíduo a partir das grifes que veste, do carro que anda, do smartphone da moda que deixa em cima da mesa do restaurante da estação deixe de ser importante”, diz João Paulo.

 

Livro No Sufoco - 15012017 Um de seus livros de maior destaque é No Sufoco, que, assim como Clube da Luta, também foi levado aos cinemas, mas com resultado aquém do esperado.

Sucesso do filme catapultou o livro

A adaptação de Clube da Luta para os cinemas estreou nas telonas em 1999 e, curiosamente, teve uma vida muito semelhante à obra que o inspirou. Chegou sendo mal compreendida, com a crítica bem dividida e encarando o longa como ode à violência. Além disso, fracassou nas bilheterias, arrecadando apenas US$ 37 milhões nos Estados Unidos e mais US$ 63,8 milhões no mundo, valor baixo para um longa que custou US$ 63 milhões, de um diretor saído de um grande sucesso, Seven: Os Sete Crimes Capitais, e um ator de renome como protagonista, Brad Pitt.

No entanto, o longa encontrou vida após sua passagem pelos cinemas. Quando chegou ao mercado de DVDs, o público finalmente descobriu a obra-prima moderna criada pelo diretor. Vendeu como água e se tornou cultuado por milhares e milhares de pessoas em todo o mundo. Se tornou também o foco de debates por todos os lados. Todo mundo queria falar sobre Clube da Luta, todo mundo queria entender melhor suas ideias e explorar cada detalhe da produção.

A adaptação acabou se tornando a grande responsável pelo sucesso da obra original. “O filme foi essencial para tornar o livro conhecido e para alavancar a carreira do autor, já que este selo de Hollywood costuma garantir prestígio editorial no sistema da indústria cultural norte-americana”, afirma o escritor e fã Alessandro Garcia. E Clube da Luta é um dos poucos exemplares entre as adaptações que é amado também pelos fãs do livro, mesmo que o longa traga alterações na trama.

“Minha opinião comparativa é a mesma que tenho sobre qualquer filme que adapta livro: são duas coisas diferentes. E calha de ambas serem geniais, pois foram feitas por profissionais incríveis. Por serem duas coisas diferentes, há diferenças consideráveis, sim. O que não torna uma melhor que outra, pois comparar filme com livro é comparar carne com banana. David Fincher é um dos meus diretores preferidos e Chuck Palahniuk é um autor magistral, muito inventivo. Os dois, dentro de suas áreas, conseguiram construir duas obras que, não por acaso, são objetos de culto mesmo vinte anos depois”, diz Alessandro. 

 

Chuck Palahniuk - 15012017 A literatura do autor norte-americano Chuck Palahniuk é composta de princípios bem definidos, como, por exemplo, contra a sociedade de consumo.

O discurso ‘subversivo’ de Chuck Palahniuk

O trabalho de Chuck Palahniuk não se limita a Clube da Luta. E aqueles que gostaram do seu primeiro livro não terão dificuldade de se encontrarem em outras obras do autor, afirma o escritor Alessandro Garcia. “Em Clube da Luta estão embutidos os ideais e discursos anticapitalistas e anticonsumistas que passarão a se propagar em diversas obras de Chuck Palahniuk. Estão ali as tentativas de insurgência contra um sistema que insiste em rotular, em demonstrar que a receita do sucesso é composta por dinheiro, demonstração de poder, beleza e ostentação.

Clube da Luta é só o primeiro round para se compreender que a literatura, para Palahniuk, é composta de princípios - muitas vezes acusados de subversivos - que se estenderão por outras obras suas, ainda que travestidos, por vezes, de tramas que não revelam isto tão claramente”, afirma. Para começar a desvendar o trabalho de Palahniuk, o escritor indica Cantiga de Ninar. “É uma obra incrível. Infelizmente, fora de catálogo no Brasil e sendo vendida a preço de ouro nos sebos. Palahniuk já declarou em entrevistas que este é seu livro mais impactante, pelos signos contidos, pelas simbolizações de força e de magia, já que o ‘plot’ do livro é uma canção que basta pensar em direção a alguém que faz com que esta pessoa morra.”

Outra obra de destaque é No Sufoco (Choke, em inglês). O livro conta a história de Victor Mancini, um viciado em sexo que concebeu um golpe complexo para pagar as contas na casa de repouso da mãe. Ele vai a um restaurante caro, finge que se engasga comendo e deixa uma pessoa “salvá-lo”. Com isso, a pessoa irá se sentir responsável pela vítima, até financeiramente, pelo resto da vida. Multiplique isso umas cem vezes que os cheques vão chegar pelo correio, em fluxo constante. No Sufoco também já ganhou uma adaptação cinematográfica, mas o resultado ficou aquém para aqueles que esperavam um novo Clube da Luta. Mesmo assim, o filme diverte e tem um belo elenco liderado por Sam Rockwell e Anjelica Huston.

 

Série Mr. Robot - 15012017 O impacto de Clube da Luta, aliás, reverbera até hoje. A série Mr. Robot, estrelada por Rami Malek (foto), bebe claramente na fonte da obra de Palahniuk

Influência

O impacto de Clube da Luta, tanto do livro quanto do filme, na cultura pop foi imenso, tanto que ele reverbera até hoje na mídia. Um dos principais exemplos é Mr. Robot, série lançada em 2015 que foi muito influenciada pela obra, do anarquismo e seu discurso militante contrário à cultura capitalista à estrutura de contar sua história, com a narração, as ilusões cênicas e as reviravoltas de fazerem o espectador se chocar. O criador da série, Sam Esmail, assume a influência. “Eu direi isso agora. Eu me inspiro em todo filme e série de TV que já vi em minha vida. E Clube da Luta foi uma das minhas maiores inspirações para Mr. Robot”, disse em entrevista à Entertainment Weekly. 

A semelhança das obras é tão visível que a série até usa a música Where Is My Mind, da banda Pixies, no final de um de seus episódios. Para quem não se lembra, a canção estourou no mundo após tocar nos momentos finais do filme de David Fincher. Mr. Robot conta a história de Elliot Alderson (Rami Malek), um programador brilhante que, no seu tempo livre, atua como hacker utilizando sua especialidade para ajudar algumas pessoas. Algo como um Robin Hood on-line. No entanto, quando ele conhece o misterioso Mr. Robot (Christian Slater), Elliot se une a um grupo de hackers para tentar derrubar uma das maiores corporações do mundo, a Evil Corp.

Bibliografia

  • Clube da Luta - 1996
  • Sobrevivente - 1999
  • Monstros Invisíveis - 1999
  • No Sufoco - 2001
  • Cantiga de Ninar - 2002
  • Diário - 2003
  • Assombro - 2005
  • Rant (2007, não traduzido)
  • Snuff- 2008
  • Pygmy (2009, não traduzido)
  • Tell-All (2010, não traduzido)
  • Condenada - 2011
  • Maldita - 2013
  • Clímax - 2014
  • Make Something Up (2015, não traduzido)

 

Filme Clube da Luta - 15012017

Entenda

Para os não familiarizados, a história de Clube da Luta é contada por um narrador sem nome, um homem que sofre de insônia e com a pressão da sociedade pela necessidade de levar a vida considerada ideal, mesmo que, para isso, ele tenha de trabalhar num emprego que odeia. Ele então passa a encontrar conforto em frequentar grupos de apoio para as mais diversas doenças que ele finge ter 

Quando ele conhece Tyler Durden (vivido no cinema por Brad Pitt), o narrador deixa seu emprego para se unir ao enigmático homem que organiza lutas secretas em porões de bares, mas os planos de Durden vão além do imaginado, criando aqueles finais de cair o queixo

Curiosidade

Clube da Luta nasceu, segundo o próprio autor, de uma série de histórias curtas. Ele havia escrito uma sobre um cara que frequentava grupos de apoio fingindo que estava morrendo. Outra sobre um que vai a grupos de luta. Uma terceira sobre um homem que urina na comida servida em hotéis. Foi, então, que ele notou que todas essas histórias tinham características em comum. Segundo Palahniuk, o livro foi escrito sendo pensado como uma reinvenção de O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald

 

 

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