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Domingo, 21.12.14 às 01:50

Léo Maia traz revelações sobre a vida do pai adotivo, Tim Maia

Marco Antonio dos Santos
Lézio Júnior Léo Maia traz revelações sobre a  vida do pai adotivo, Tim Maia
Léo Maia

Definitivamente, o filme "Tim Maia", dirigido por Mauro Lima, um dos destaques do cinema nacional em 2014, reacendeu o interesse por um dos cantores mais queridos e polêmicos da MPB. Tim também inspirou o livro biográfico "Som e Fúria", escrito pelo jornalista Nelson Motta, que por sua vez levou ao musical "Tim Maia, Vale Tudo". Mas nada disso foi visto por seu filho adotivo, o cantor Léo Maia.

 

Léo é filho de Maria de Jesus Gomes da Silva, namorada de Tim, que rompeu com ele, namorou outro rapaz, engravidou dele, mas depois reatou com o cantor. Apaixonado, Tim nem ligou para o fato do filho não ser dele, adotou e tratou a vida toda Léo como filho. Também com Maria de Jesus o cantor teve seu segundo filho, Carmello Maia, que é atualmente o único herdeiro legal do acervo musical de Tim.

 

 

A herança artística ficou mesmo com Léo. Foi criado por Tim e por integrantes da Banda Vitória Régia. Conviveu com cantores como Cassiano, Hyldon e Jorge Ben Jor. Léo sempre fica empolgado quando recorda histórias do pai. São lembranças desde as primeiras aulas de violão que recebeu de Tim, as memoráveis furadas de compromisso que o cantor dava, que nem sempre comparecia nos shows agendados, nem quando foi o convidado especial do soul man norte-americano James Brown, o pai do funk.

 

 

Nesta entrevista, há revelações sobre os bastidores da gravação do mais cultuado disco de Tim, "Racional", gravado na época em que o cantor ficou três anos longe da drogas. Com quatro discos lançados, Léo está prestes a lançar seu 5º CD, em abril de 2015. Em meio ao trabalho de preparação do lançamento, ele concedeu por telefone a seguinte entrevista ao Diário.

 

 

Diário da Região - Quem foi seu pai?

 

 

Léo Maia - Sebastião Rodrigues Maia foi o cara que me recebeu no Planeta Terra. Se responsabilizou pelo custo do hospital e foi lá me buscar juntamente com o cantor Cassiano e o Paulinho da Guitarra. Foi ele que cuidou de mim.

 

Diário - Como era a relação do Tim Maia com sua mãe?

 

Léo - Minha mãe era uma jovem. E meu pai foi muito apaixonado por ela. Com ela teve dois filhos, eu e meu irmão Carmello Maia. Foi um casal que se amou muito. Meu pai tinha um carinho muito grande por minha mãe. E ela por ele. 

 

 

Diário - Existe alguma música que teu pai compôs pensando em tua mãe?

 

Léo - Tem várias. Tem uma história interessante que me recordo, que meu pai ligava para as rádios pedindo para que desse recado no ar para ela, dizendo que queria que ela ligasse para ele. 

 

Diário - Ele não tinha o telefone de onde ela estava?

 

Léo - Naquela época, nem todo mundo tinha telefone. Diferente de hoje. Estamos falando de década de 70. E meu pai ligava na rádio, falava com o locutor, dizendo "é o Tim Maia que está falando, diz aí no ar que preciso falar com ela" (risos).

 

Diário - E os locutores não tomavam susto?

 

Léo - Claro que tomavam. Mas ele fazia tanto isso que, a partir de um momento, eles passaram se acostumar.

 

Diário - Como ele era como pai em casa?

 

Léo - Meu pai era fantástico em casa. Existem dois caras, o Sebastião Rodrigues Maia e o Tim Maia que todos conheciam. Eu conhecia o Sebastião. Meu pai cuidou não só de mim, mas de um mundo de crianças abandonadas e pobres. Ele ajudava um orfanato com mais de 60 crianças. A gente dava alimentação, roupa, material escolar e remédios. Era cuidar de verdade. Ele gostava tanto que muitas vezes ele trazia as crianças para brincar lá em casa e dava festa de aniversário para elas. Ele não alugava salão de festa. E a gente era feliz. Nós tínhamos a nossa onda. Ele era fantástico, tinha um coração grande e nobre.

 

Diário - Como chamava essa entidade?

 

Léo - Lar de Narcisa. Existe ainda, fica no Rio de Janeiro.

 

Diário - Como todo pai, ele te cobrava boas notas no estudo?

 

Léo - Meu pai era fogo. Eu entrei na faculdade com 17 anos para cursar direito. Meu pai não acreditava que eu estava estudando mesmo. O negócio é o seguinte: "calça de veludo, bunda de fora", como ele mesmo dizia. O que ele fazia para me vigiar... Ele dava ingressos dos shows e discos para as meninas que trabalhavam na recepção da faculdade para que, em troca, elas ligassem para ele toda vez que eu faltasse das aulas.

 

 

E eu tinha a "Malandragem Maia". Era um bon vivant, sempre tinha amizade com todo mundo. Já tinha espírito artístico, só não sabia. Então, como descobri que meu pai dava um ingresso para que elas me denunciassem, eu dava dois ingressos para elas não avisarem meu pai das minhas escapadas da faculdade. Era a espionagem e a contraespionagem. Mas fui bom aluno.

 

Diário - Quando você era adolescente queria ser advogado?

 

Léo - Na verdade, verdade mesmo, eu queria ajudar meu pai. Eu nunca quis ser advogado. Eu queria ser músico. Desde os 14 anos eu trabalho como músico. E ajudava nos shows do meu pai com a Banda Vitória Régia. Fui em que paguei meu vestibular na faculdade e bancava as mensalidades. Eu corria atrás. Quis fazer direito porque meu pai sempre reclamava que precisava de alguém que entendesse de lei. Eu estava numas de não estar fazendo nada.

 

 

Comentei com ele que iria estudar direito, para ser o cacoete dele. Se o cara falasse uma parada que fosse errado, eu já orientava meu pai. Eu queria dar uma protegida em meu pai. Tanto que quando ele faleceu, fiquei muito mal. Sofri gastrite hemorrágica. Comecei a vomitar sangue. Voltei para a faculdade, fui para a aula, mas não parava de chorar. Senti um vazio imenso. Saí da aula, fui para um barzinho tocar músicas dele a noite inteira. Tranquei a matrícula do curso e nunca mais voltei. Passei do 3º para o 4º ano, mas não voltei mais lá.

 

Diário - Havia muita preocupação dele em se proteger de maus empresários ou falcatruas?

 

Léo - Claro. Meu pai era um artista com cabeça de gênio. A mente dele era muito avançada para a época. Na cabeça dele era muito ponto, contraponto, hipótese, era um cara muito racional. Sacava muito do mundo empresarial. Precisava sempre ter alguém de confiança ao lado. E eu era o escolhido. Dirigia o carro para ele desde os 13 anos. Tomei conta dele desde moleque. Ele sempre gostou de nossa parceria.

 

Diário - Você teve a oportunidade de conhecer muito do mundo empresarial musical ao lado do teu pai. Fazendo comparação com os dias atuais, melhorou ou piorou?

 

Léo - Olha, a obra de meu pai é eterna. Cada vez mais as pessoas vão se envolver com a musicalidade dele. O trabalho de meu pai é para estudar a vida inteira. Não dá para aprender rápido. Não é uma matéria fácil. Ele foi supercomplexo. Ele foi no samba, funk, rock, soul, xaxado, bolero... O cara foi em tudo o que quis e com excelência.

 

Diário - Mas como era a relação com as gravadoras? Ele chegou a fundar o selo Vitória Régia só para gravar os próprios discos...

Léo - Neste ponto ele foi uma revolução. Na época, ninguém sonhava fazer isso. Para outros músicos, era uma atitude fora de questão e até do imaginário deles. O meu pai foi revolucionário nisso. Faça correção, meu pai não era revolucionário, mas um evolucionário, se é que existe essa palavra. Ele era a evolução em pessoa. Ele 'evolucionava' sobre vários aspectos. Era genialidade.

 

Diário - Além das músicas do teu pai, o que mais te influenciou musicalmente?

 

Léo - Eu cresci muito ouvindo Jorge Ben, indo aos shows dele. Eu tinha passe livre no Circo Voador e em outras casas de show do Rio de Janeiro. Vi todos os shows de todo mundo. Eu via show do Caetano Veloso, Gilberto Gil. Mas um cara que curtia demais era Jorge Ben. Vi o Barão Vermelho surgindo. No começo da banda. Era o lançamento. Recordo do Cazuza começando a cantar a música "Pro Dia Nascer Feliz", na abertura do show do meu pai. Lembro do Cazuza anunciando a canção que faria parte do novo disco da banda. E meu pai iria entrar no palco depois. Vi muita coisa maneira. Fui ao show do James Brown no Brasil.

 

Diário - Como foi esse show do James Brown?

 

Léo - Na verdade, o convidado era meu pai, mas ele não quis ir. O show foi no Maracanãzinho, final dos anos 80. Meu pai foi chamado, mas, para variar, deu os canos. Para não ferrar geral, ele ligou para o pessoal da produção do show, que me colocou para assistir com ele. Foi um show bom demais. Ao final do show, foram lá me apresentar para o James Brown como o filho do Tim Maia. Ele foi e me deu um tapinha na nuca, estilo "Pedala Robinho". E começou a falar em inglês, mas me recordo bem das palavras. Tenho essa lembrança. Quando contei para meu pai ele ficou arrependido de não ter ido.

 

 

Falei para ele que tinha sido fantástico. Comentei "o James Brown faz tudo o que o senhor faz e mais um pouco". Outro show bom que vi foi do Stevie Wonder. Outra vez meu pai foi convidado e não foi. Eu avisei ele para irmos juntos. Deu 19h, eu estava todo arrumado e ele nada. Comecei a andar pela casa para ver se ele se lembrava do show, se se arrumava para irmos juntos. Ele deu a desculpa que se fosse muita gente ia querer conversar com ele e não ia ser legal. No fim, disse que não ia porque sabia que iam filmar, por isso preferia ver depois.

 

Diário - Qual a justificativa dele para faltar nos eventos?

 

Léo - Era o jeito dele. Não tinha explicação. Meu pai era maluco mesmo.

 

Diário - Alguma vez ele disse ter se arrependido por faltar aos shows?

 

Léo - Ele sempre se arrependia de faltar. Mas tinha o lance dos empresários que organizavam os shows não quererem receber o dinheiro do cachê de volta. Eles queriam era que ele fizesse show. Eles perdoavam meu pai. Ficavam putos, mas depois ganhavam mais dinheiro, porque quando o show era remarcado vinha o dobro de gente para assistir o Tim Maia. Já teve ocasião do meu pai fazer dois shows no mesmo dia. Qualquer outro artista que faltasse aos show seria escorraçado do meio musical, nas rádios, televisão e pelo público. Mas com meu pai era diferente. O povo perdoava.

 

Diário - Em todos seus discos você sempre coloca uma canção de seu pai. Isso sempre ocorrerá na tua obra?

 

Léo - Não diria isso. Até porque o mundo é cíclico. Sou subproduto do Tim Maia. Aprendi a cantar e a tocar violão com ele. Diário - Qual foi a primeira música?

 

 

Léo - "Sossego". Lembro até hoje, porque ela só tem um acorde. Ele me disse "Meu irmão, é um acorde só. Se você não aprender com essa música, não vai aprender a tocar mais porcaria nenhuma". Também fui ensinado por todos os músicos da Banda Vitória Régia. Todo mundo deu um toque. E juntando tudo isso é o que sou.

 

Diário - Ele te chamava de "meu irmão"?

 

Léo - No Rio de Janeiro é assim. É como se fosse um "e aí, como é que vai?" "Meu irmão" quer dizer meu amigo. Mas meu pai não me chamava assim neste sentido. Era gíria dele.

 

Diário - Você ainda tem contato com o pessoal da Banda Vitória Regia?

 

Léo - Não. Não tenho contato. Até porque a Banda Vitória Régia era a banda do meu pai. Depois que ele morreu ela acabou. Essa galera que está à frente da banda hoje não são os originais. Não são aqueles que gravaram os maiores sucessos do meu pai.

 

Diário - Ainda tem contato com o cantor Hyldon, que era muito amigo do teu pai?

 

Léo - Tenho. Meu maior hit de carreira quem me deu foi o Hyldon, a canção "Revanche", que está no terceiro disco.

 

Diário - Nos últimos anos têm sido lançadas várias obras sobre a vida de seu pai. O que achou do livro do Nelson Motta (O Som e a Fúria) e o filme recentemente divulgado?

 

Léo - Não li o livro, não vi o filme e muito menos a peça de teatro que diz que fizeram inspirada na vida do meu pai.

 

Diário - Você prefere não conhecer?

 

Léo - Cara, eu convivi com meu pai de perto. Não preciso ver o filme ou a peça de teatro. Não tenho opinião sobre o que foi feito. Não desejo expressar minha opinião sobre o filme. As pessoas que participaram que conversem entre si. Não posso falar do que não vi. Seria leviano da minha parte.

 

Diário - Você não pensar em escrever um livro para dar sua versão de quem foi Tim Maia?

 

Léo - Ah, isso eu gostaria. Juro por Deus. O dia que eu tiver calma e paciência para fazer isso... Quero falar do meu pai entrando no estúdio sem uma música, falando o seguinte "meu irmão, começa a gravar". De repente, pum pum pum, meu pai gravava cinco, seis músicas, só com voz e violão, que depois viravam hits. Existe isso de um cara gravar e dar seis músicas boas para a banda gravar? Queria explicar como saiu a história do disco "Racional". Queria chamar os caras da antiga, para ajudar a recontar isso. O Paulinho Guitarra fez o arranjo de tudo.

 

 

Nunca conversaram com ele. O cara foi padrinho do meu irmão Carmelo. Ele era amigo do meu pai a ponto de ser padrinho. Foi um cara que fez arranjos para vários discos de meu pai. Não estou falando de arranjos simples. Estou falando de canções como "Gostava Tanto de Você", "Azul da Cor do Mar" e tantas outras músicas boas. E ele tinha na época apenas 15 anos de idade. Olha o nível do moleque. São coisas que gostaria que os jovens de hoje soubessem. Eu posso contar. Tenho uma visão totalmente diferente de tudo que andam falando.

 

Diário - Como foi gravado o disco "Racional". Apesar de ter sido feito na década de 70, como pode parecer muito com o som atual?

 

Léo - Falando tecnicamente, gravar um disco com aquela sonoridade equivale a comprar um apartamento no valor de R$ 500 mil a R$ 600 mil. Meu pai pegou do bolso dele o valor equivalente a R$ 600 mil e investiu tudo em música. Sem pestanejar. Segundo ponto é que o disco já estava pronto. Parece-me que as únicas músicas que permanecem com mesmo texto são "Ela Partiu" e "Que Beleza". O resto, ele 'retextualizou'. Foi um período que meu pai ficou três anos sem usar drogas. Meu, ele jogou todos meus brinquedos fora.

 

Diário - Até os brinquedos?

 

Léo - Naquela época, para ele, brinquedo era coisa do diabo. Eu pirei, porque eu tinha acabado de ganhar uma guitarra de plástico. Hoje o disco é cultuado no mundo todo. Na Europa é comentado. Os grandes selos do mundo vendem Tim Maia. Os músicos negros americanos estão ouvindo Tim Maia. Querem saber quem é esse negão. Acham louco. A parada da cultura brasileira é muito bonita. A gente não sabe vender. Paramos no tempo. Nos acomodamos. O mercado se acomodou.

 

 

A cultura do Brasil poderia ser vendida para trazer divisas. O que eu chamo de cultura brasileira é o samba verdadeiro, bossa nova, choro, música clássica brasileira, Villa-Lobos, nosso maracatu. Só se absorve o lixo. A nossa cultura está estranha. Vivemos em guetos musicais. Você é rap, funk, forró, dupla sertaneja. A gente é bem mais que isso. Na Europa, existem dezenas de selos que não ficam preocupados em vender milhões de CD, mas em divulgar seus produtos, para tirar no final do ano uma boa receita.

 

Diário - Por que não escreve já sobre seu pai?

Léo - Eu estou preocupado com a minha carreira no momento. Estou focado no meu trabalho. Não quero me aproveitar do momento. Quero fazer uma coisa por amor. O dia que eu achar que é o momento vou fazer legal. Como acho que deveria ser feito.

 

Diário - Como está a agenda do show "Tributo a Tim Maia", que você protagoniza com outros músicos?

 

Léo - Sempre faço o show "Tributo a Tim Maia", porque há muito pedido de empresas. E eu não tenho nada contra. Só não quero deixar o repertório e a história do meu pai morrer ou ficar desprestigiado, por algum motivo esdrúxulo. E ele não está aqui para se defender. Eu acho que musicalmente posso fazer isso por ele. As pessoas sentem muita saudade dele. Ele teve muito carinho por mim. E o que ele me ensinou eu consigo repassar no palco. Pessoalmente, fazer um show de tributo a Tim Maia tem sido uma honra para mim. É minha herança.

 

Diário - Está com novo CD para lançar?

 

Léo - Vai sair uma coletânea agora com as minhas músicas de novelas. E o disco novo sai em abril de 2015.

 

Diário- Você conhece Rio Preto?

Léo - Opa, se conheço. Espero se Deus quiser ser convidado para fazer show. Já fui chamado, mas ainda não deu certo. Quero estar aí nesta cidade.

 

 

Assista o videoclipe de Léo Maia:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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