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Sábado, 17.06.17 às 18:00 / Atualizado em 17.06.17 às 18:00

Projeto caça pessoas ‘invisíveis’

Nany Fadil
Mara Sousa Marilene Carvalho e Fábio Polotto - 18062017
Marilene Carvalho conta a sua história ao coordenador do projeto, Fábio Polotto

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Mara Sousa Marilene Carvalho e Fábio Polotto - 18062017
Marilene Carvalho conta a sua história ao coordenador do projeto, Fábio Polotto

Qual é o seu sonho? Assim como a impressão digital, o sonho traz a individualidade de cada ser humano, o faz único. Ainda que o sonho seja algo em comum, como um novo emprego, cada pessoa fará com que essa possibilidade seja vivenciada de maneira individual e intransferível. Saber qual é o sonho de algumas pessoas é o que um grupo de Rio Preto está fazendo, mas não são pessoas comuns, eles são moradores em situação de rua.

O RP Invisível é um projeto recém-lançado que quer mostrar quem são e as histórias de vida daqueles que, por circunstâncias diversas, acabaram por fazer das ruas, praças e pontilhões seu lar. Por meio de vídeos postados no Facebook e no Instagram, um grupo de voluntários dá nomes, mostra quem são e conta quais são os sonhos dessas pessoas. “Quando perguntamos a eles qual o sonho, a humanidade que existe em cada um, o sentido de vida que estava perdido, é resgatado.

Eles voltam a ser indivíduos únicos, com suas histórias. É isso que queremos mostrar para a sociedade. Eles são vistos, mas não enxergados”, diz o coordenador do projeto Fábio Polotto. Polotto é amigo do jornalista Vinícius Lima, cofundador do SP Invisível, feito há três anos em São Paulo. “O Vinícius já tinha me falado do projeto e eu sempre quis trazer para Rio Preto, que é uma cidade de porte grande e tem muita gente vivendo em condição de rua”, diz.

No dia 6 de maio, Vinícius veio a Rio Preto e os dois saíram pelas ruas para analisar o cenário local. “Falamos com alguns moradores de rua e vimos que é uma cidade com potencial. Há muita vida que se faz invisível aqui”, afirma Polotto. Lançado há duas semanas, o RP Invisível já tem cerca de 14 mil visualizações, mais de 1 mil seguidores e 4.850 internautas envolvidos no Facebook. No Instagram, são mais de 2,3 mil seguidores e 8 mil impressões. 

O grupo é formado por 25 voluntários que abordam as pessoas em situação de rua, gravam e fotografam. Ao ler, é possível ver que se trata de pessoas que tiveram seus caminhos interrompidos e outra trajetória é a presente. “Buscamos justamente mostrar que eles são pais, mães, filhos, pessoas com histórias. Queremos que sejam vistos por outro olhar que não seja o de julgamento da sociedade que os vê como vagabundos, pinguços, usuários. Eles são muito mais que isso, são pessoas”, diz Polotto.

Além de dar visibilidade, o projeto também almeja que, por meio das mídias sociais, um maior número de internautas se envolvam com as histórias e tentem realizar os sonhos de quem está em situação de rua. “Quem sabe alguém não dê uma chance para essas pessoas”, diz. Quem quiser conhecer o trabalho basta acessar o www.facebook.com/riopretoinvisivel ou www.instagram.com/rpinvisivel/.

 

Arte - Serviços prestado ao moradores de rua - 18062017 Clique na imagem para ampliar

Abordagem

A pedido do Diário, na terça-feira, dia 13, Fábio Polotto foi com a reportagem até uma praça no Centro para mostrar como é o trabalho. Lá é um dos pontos de concentração de pessoas em situação de rua. A primeira coisa é identificar quem está nessa condição e aproximar-se. Não é fácil e simples como pode parecer. O álcool está bastante presente entre os que estão em situação de rua, seja para se esquentar do frio, para “bagunçar” as lembranças ou confundir a realidade. Outras drogas também fazem parte dessa realidade. 

Com o celular na mão, Polotto falou sobre o projeto RP Invisível, mostrou algumas postagens e perguntou para uma moça se concordaria em também ser mostrada pelo Diário. Mariele Souza de Carvalho, 36 anos, veio para Rio Preto entre 2014 e 2015, depois de conhecer diferentes lugares no País. Ela deixou tudo para trás, como conta, após receber o convite de um rapaz para “correr o trecho”, há 10 anos. Antes trabalhava como auxiliar administrativo em uma empresa em Presidente Prudente.

“Meu maior sonho é ter minha família do jeito que eu tinha, queria minhas filhas de volta. Não as vejo há três anos”, disse. Segundo Mariele, as filhas são criadas por sua mãe, que não permite mais a aproximação. “Minha mãe não aceita que eu tomo pinga todo dia e que eu moro na rua.” Ela está grávida de três meses e a dependência química não a deixa largar o corotinho de pinga, mesmo durante o dia. Também não consegue parar de usar outras drogas e evitar correr o risco de que a criança nasça com problemas de saúde. 

O Diário abordou ainda José da Silva, 46. Entre declarações confusas ele revelou: “Quero voltar a trabalhar na rodoviária. Se você me der uma calça 36 (numeração), uma blusa e um sapato 39, eu vou lá para arrumar meu serviço de volta.” A bebida foi o que fez com que o Baiano, como é conhecido no Terminal Rodoviário de Rio Preto, perdesse a família, o emprego e os bens materiais que havia conquistado ao longo de anos de trabalho. “Eu vou me recuperar quando eu tiver meu emprego de volta lá na rodoviária, em nome de Jesus”. Logo após ter dito qual o sonho, ele quis fazer uma oração e pediu: “Pai devolve a minha vida”, e então o rosto de José foi lavado pelas lágrimas.

 

 

José da Silva - 18062017 "Eu vou me recuperar quando eu tiver meu emprego de volta lá na rodoviária, em nome de Jesus" - José da Silva, 46, morador de rua

Responsabilidade é das autoridades

“Perguntar ao morador de rua qual o seu sonho, o projeta para o futuro”, afirma o sociólogo Augusto Caccia-Bava. Segundo ele, em um livro escrito sobre os povos Guarani no Brasil, o autor descreve a importância do sonho. “Lembrei-me de um trecho em que o autor diz que os povos Guarani precisam caçar porque a caça faz com que sonhem e o sonho organiza a vida”, conta.

Caccia-Bava, que é especialista em pessoas em situação de rua, fez um estudo em que aponta que são necessários R$ 700 por mês, por pessoa, para retirá-las dessa condição. “O primeiro passo é recuperar o sentido de grupo familiar, de origem. Isso pode ser feito com parentescos distantes e mesmo vizinhança. Isso devolve a eles o sentido de integralidade”, afirma. Segundo o sociólogo, cabe ao poder público intervir na superação da condição de rua e reintegração social.

“As autoridades públicas precisam ser chamadas em sua responsabilidade para acabar com essa situação. Elas precisam assumir o problema e cuidar dessas pessoas, é inaceitável que no Estado de São Paulo tenhamos a mendicância”, diz. As ações desenvolvidas por ONGs e grupos no sentido de alimentar quem está em situação de rua não são criticadas pelo especialista, mas questionadas. “Distribuem comida à noite para essas pessoas, mas todos nós precisamos de quatro refeições por dia e não é diferente para eles, só porque estão nas ruas.

Isso pode apaziguar o sentimento errôneo de culpa, mas é uma fantasia achar que o morador vai sobreviver na rua. As ruas são incompatíveis com a vida. A sociedade precisa cobrar uma solução das autoridades públicas. Só assim poderemos resgatar essas vidas”, conclui. Segundo a Secretaria de Assistência Social, Rio Preto mantém o Centro POP onde são oferecidos vários serviços aos que estão em situação de rua, além de acolhimento em abrigo temporário (albergue noturno), uma república, com 14 pessoas, cozinha comunitária, com 100 refeições diárias, e o Consultório de Rua.

Ações 

Não é de hoje que Rio Preto se debate com propostas que garantiriam o resgate das pessoas em situação de rua. Em abril de 2015, foi anunciada uma força-tarefa da Prefeitura em conjunto com o Ministério Público, polícias, Guarda Municipal e outros órgãos. Na ocasião, pretendia-se definir o perfil dessas pessoas e encaminhá-las a programas assistenciais. Haviam sido definidas 18 ações com a finalidade de recuperação da situação social de quem estava em situação de rua, sua capacidade e reinserção. Algumas medidas foram adotadas e outras, “esquecidas”. Este ano, a Prefeitura de Rio Preto anunciou que está fazendo um novo censo dos moradores de rua para verificar quais serão as políticas públicas mais eficientes para atendê-los. Segundo levantamento do final de 2016, 900 pessoas vivem em situação de rua em Rio Preto. Em 2015, eram 525 e em 2013, 136.

 

Arte - Reprodução Facebook - 18062017 clique na imagem para ampliar

 

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