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Domingo, 14.06.15 às 00:00

Papa Francisco manda cardeal investigar denúncias contra bispo de Rio Preto

Allan de Abreu e Jocelito Paganelli
Belisário/Editoria de Arte arte_jogo dom tome

 

Dom Tomé Ferreira da Silva está na berlinda. O Vaticano instaurou sindicância contra o bispo de Rio Preto por supostamente manter um relacionamento amoroso com seu motorista particular e entregar a ele vultosas quantias sacadas da conta bancária da Diocese. Dom Tomé também é acusado de perseguir padres e ser omisso quanto a denúncias feitas contra sacerdotes.

Sigilosa, a investigação veio à tona no último mês, quando o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, esteve em Rio Preto para ouvir nove padres e também o gerente do banco em que a Diocese possui conta corrente. O Diário da Região conversou com três sacerdotes entrevistados pelo cardeal e narra nas próximas páginas os detalhes da apuração comandada pela Santa Sé.

 

cardeal arcebispo_dom Odilo Scherer Por ordem do Vaticano, dom Odilo Scherer investiga bispo de Rio Preto após denúncias de desvio de dinheiro, assédio moral e relacionamento amoroso

A determinação para que o bispo de Rio Preto, dom Tomé Ferreira da Silva, fosse investigado partiu diretamente do papa Francisco à Nunciatura Apostólica em Brasília, que, por sua, encarregou o cardeal-arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, de presidir as investigações. Dom Odilo fez uma visita-surpresa de cinco dias à Diocese, no fim do último mês. A pedido dele, o próprio dom Tomé contatou os seis padres do Colégio de Consultores, que assessora diretamente o bispo nos assuntos administrativos e pastorais da Diocese, além de outros três sacerdotes com quem o bispo teve algum tipo de atrito e do ex-motorista da Diocese, R.A.B., com quem dom Tomé teria tido um relacionamento amoroso. Pediu para que fossem à Cúria Diocesana. Sem saber do que se tratava, os padres foram surpreendidos quando, ao chegarem, se depararam com o cardeal. Todos foram entrevistados individualmente por dom Odilo, sem a presença do bispo.

O Diário da Região conversou ao longo da última semana com três dos padres ouvidos por dom Odilo. Sob a condição do anonimato, eles narraram detalhes da conversa com o cardeal. Em primeiro lugar, dom Odilo procurou saber dos entrevistados como era o comportamento do bispo em relação à comunidade e aos outros padres. Alguns teriam acusado dom Tomé de assédio moral. Em seguida, o cardeal começou a perguntar aos padres sobre o motorista R.A.B., contratado por intermédio do barbeiro de dom Tomé assim que o bispo assumiu o cargo, no fim de 2012. Há um ano e meio, o bispo teria oferecido uma “quantia exorbitante”, nas palavras de dom Odilo, para que R.A.B. deixasse o cargo e a cidade. O Diário apurou que o dinheiro - o valor não foi revelado aos padres - teria sido sacado por dom Tomé diretamente da conta da Diocese em uma agência do banco Santander.

“Dom Odilo perguntou se eu sabia que ele saía com um rapaz. Se eu já tinha visto o bispo com esse rapaz, que trabalhou como motorista de dom Tomé. Eu disse que sim, que já tinha visto o bispo algumas vezes com esse motorista. Dom Odilo perguntou também se eu tinha ouvido que dom Tomé pagou uma quantia exorbitante para esse rapaz desaparecer de Rio Preto. Eu disse que sim”, afirmou um dos padres. O cardeal também fez perguntas sobre o abaixo-assinado que um grupo de fiéis entregou ao Vaticano e à Nunciatura pedindo a saída de dom Tomé. Produzido em 2013, o movimento reuniu 1,5 mil assinaturas.

Cada resposta dos sacerdotes era cuidadosamente anotada pelo cardeal em um pequeno caderno. Além de ouvir os padres e o motorista, dom Odilo foi até a agência do Santander onde a Diocese é correntista. Procurado pela reportagem, o gerente da agência não quis se manifestar. Para justificar a presença do cardeal em Rio Preto e despistar eventuais suspeitas contra dom Tomé, padres ligados ao bispo divulgaram em blogs e redes sociais que dom Odilo veio tratar da criação da Arquidiocese em Rio Preto. “Isso não é verdade. Esse assunto não foi tratado em nenhum momento pelo cardeal”, disse outro dos padres entrevistados.

O Diário apurou que R.A.B. retornou a Rio Preto e recentemente teria ficado noivo de uma mulher. O motorista, cuja família é de Catanduva, não foi localizado ontem para falar sobre o caso. A assessoria da Arquidiocese de São Paulo confirmou em nota que dom Odilo “fez uma visita fraterna, de bispo para bispo, a dom Tomé Ferreira da Silva”, e que “também conversou com outras pessoas para verificar e averiguar o fundamento de notícias divulgadas a respeito da Diocese de São José do Rio Preto”. 
A assessoria concluiu informando que o cardeal não entraria em detalhes sobre o assunto. Dom Tomé nega as irregularidades e atribui as acusações a boatos.

É a primeira vez que um bispo de Rio Preto é alvo de uma investigação por parte do Vaticano. A sindicância integra mudança na política interna da Santa Sé, que passou a ter mais rigor com bispos suspeitos de omissão ou desvio de conduta. Essa mudança de postura do Vaticano surpreendeu a própria Igreja, já que o Código de Direito Canônico não prevê penalidades aos bispos, apenas a padres. 

 

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'A Igreja é mãe e mestra. Saberá discernir e avaliar'

Em entrevista ao Diário por e-mail, o bispo dom Tomé Ferreira da Silva negou ter mantido relacionamento íntimo com o motorista da Diocese e atribuiu as acusações a “boatos de origem anônima e sem as devidas provas”. Perguntado se teme sofrer algum tipo de punição do Vaticano, dom Tomé mostrou-se esperançoso. “A Igreja é mãe e mestra. Saberá discernir e avaliar.” Leia abaixo a entrevista completa, concedida na tarde de sexta-feira.

Diário da Região - Como o senhor conheceu o motorista da Diocese R.A.B.?
Dom Tomé Ferreira da Silva - Na entrevista dos candidatos à função de motorista.

Diário - Ele foi contratado assim que o senhor chegou à Diocese?
Dom Tomé - Contratado em 1/3/13.

Diário - Por que ele foi demitido do cargo?
Dom Tomé - O contrato de trabalho foi encerrado porque chegou-se à conclusão da inviabilidade da Diocese em ter um motorista.

Diário - Quando ocorreu essa demissão?
Dom Tomé - Contrato encerrado em 30/8/13.

Diário - O senhor teria entregue a ele dinheiro de conta bancária da Diocese? Se sim, qual o valor?
Dom Tomé - Não. Nenhum valor.

Diário - O senhor chegou a ter algum relacionamento amoroso com R.A.B.?
Dom Tomé - Não.

Diário - A respeito dessas suspeitas, o que o senhor alegou ao cardeal dom Odilo na ocasião da visita dele a Rio Preto e também no encontro de bispos em Aparecida nesta semana?
Dom Tomé - À Igreja, através dos seus responsáveis, foram dadas todas as informações solicitadas.


Diário - A quem e a que o senhor atribui essas acusações?
Dom Tomé - Não atribuo a nenhuma pessoa. A origem é desconhecida, anônima. Não tenho ciência da razão das acusações.

Diário - O senhor teme sofrer retaliações por parte do Vaticano?
Dom Tomé - A Igreja é mãe e mestra. Saberá discernir e avaliar.

Diário - Padres o acusam de omissão no trabalho pastoral, assédio moral contra os padres e omissão em relação a denúncia contra o comportamento de padres por parte de leigos. Qual sua opinião sobre essas acusações?
Dom Tomé - A programação pastoral da Diocese de São José do Rio Preto transcorre sem maiores dificuldades, contando com a ajuda dos leigos, religiosos e religiosas, diáconos e padres. Nunca houve “assédio moral” a nenhuma pessoa. Todas as observações provenientes dos leigos, a respeito do exercício do ministério dos nossos padres, foram averiguadas ou estão sendo encaminhadas. Nenhuma foi ignorada. Não há acusações, mas boatos, de origem anônima e sem as devidas provas.


Diário - O senhor cogita deixar a Diocese?
D. Tomé - A transferência é atribuição da Santa Sé. 


Afastamento de padre Nilson foi principal atrito

O principal imbróglio da gestão de dom Tomé à frente da Diocese até aqui envolveu um conterrâneo de Minas Gerais, padre Nilson de Paula Resende. Dom Tomé conheceu o padre nos anos de 1990, quando o primeiro lecionou em seminários do sul de Minas onde Nilson estudava. Ambos se reencontrariam novamente aqui em 2012, quando dom Tomé assumiu a Diocese.

Em 2013, parte dos fiéis da paróquia São Francisco de Assis, em Rio Preto, cujo titular era Nilson, criaram o movimento “SOS São Francisco” e passaram a pressionar o bispo para transferir o padre do local. Nilson era acusado de autoritarismo e falta de transparência nas finanças da paróquia. Segundo eles, o padre teria afastado a pastoral do dízimo e tomado medidas arbitrárias, como a compra de um carro zero quilômetro por R$ 60 mil e a compra e reforma de uma casa no bairro, com custo total de R$ 450 mil, em nome da paróquia.

Mas dom Tomé só agiria em março deste ano, após o Diário revelar que padre Nilson era investigado pelo Tribunal Eclesiástico da Diocese, espécie de Judiciário da Igreja, por suposto assédio sexual contra três ex-secretárias da paróquia. Nilson foi transferido para Nhandeara, onde é auxiliar do padre titular.

Na época, em e-mail ao Diário, dom Tomé admitiu que o padre deixou um rombo financeiro na paróquia. “Deve-se encontrar uma forma para quitar a dívida”, escreveu. Padre Nilson ingressou com ação na Justiça contra 12 integrantes do “SOS São Francisco” pedindo indenização por danos morais. Ele alega ter sido caluniado pelo grupo nas redes sociais.

 

fachada_bispado rio preto Bispado de Rio Preto, onde padres foram sabatinados pelo cardeal-arcebispo dom Odilo Scherer


Bispo muda grupo que administra finanças da Igreja

Diante das denúncias, o bispo de Rio Preto, dom Tomé Ferreira da Silva, fez mudanças no grupo que administra as finanças da Igreja Católica na cidade. Antes, funcionários da Cúria Diocesana controlavam o fluxo de caixa do bispado. Agora, tudo passa pelas mãos do homem de confiança do bispo, padre Mário Ustazewski, da paróquia São Pedro, de Mirassol. “Há um ano auxilio o bispo no controle das finanças da diocese. É uma ajuda voluntária. Ele (dom Tomé) me convidou e eu aceitei”, disse o padre em entrevista ao Diário.

O sacerdote desconhece os motivos que levaram dom Tomé a afastar os funcionários da cúria do controle financeiro da diocese. “Essa foi uma decisão pessoal do bispo”, comentou padre Mário, que não tem experiência contábil, mas garante que isso não atrapalha o desempenho de sua atuação. “Tudo está sendo feito com muita transparência”, afirmou.

A reportagem também conversou com um dos funcionários da cúria que administrava os recursos financeiros da diocese e foi afastado da função. Ele continua trabalhando para a igreja, mas em outro setor administrativo. Em sua visita a Rio Preto, o cardeal-arcebispo dom Odilo Scherer teve contato com esse funcionário. “Levei dom Odilo para alguns lugares na cidade”, disse. O funcionário afirmou que não foi sabatinado pelo cardeal. Ele não quis dar detalhes dos locais que dom Odilo visitou. O Diário apurou que o arcebispo foi até uma agência bancária, onde o bispado tem uma conta corrente. Procurado para falar sobre a visita do cardeal, o gerente responsável pela agência, disse que o “sigilo bancário” impede que ele forneça qualquer informação sobre clientes.

Omissão

Fiéis da Diocese de Rio Preto também acusam dom Tomé de engavetar denúncias contra padres. Diante da omissão do bispo, os católicos passaram a encaminhar os casos de desvio de conduta de sacerdotes diretamente para o sede da Arquidiocese, em São Paulo, e também para o Vaticano. Entre as reclamações, o uso indevido do dinheiro das paróquias pelos padres. Em alguns casos, as denúncias são feitas por ex-funcionários das igrejas. Esse movimento dos fiéis também incentivou a visita do cardeal dom Odilo a Rio Preto. 

 

 

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Colaborou Guilherme Baffi

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