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Domingo, 16.03.14 às 00:50

Hipnose é aliada no combate ao vício do álcool

Victor Augusto
Pierre Duarte Hipnose é aliada no combate ao vício do álcool
Psicóloga usa cristal para pôr paciente em transe e “enxergar" o inconsciente, onde ficam os registros de tudo que ele já viveu

Uma voz doce convida a uma viagem diferente, aquela que leva ao nosso interior e às nossas mais profundas lembranças. É dessa forma, com auxílio da hipnose, que um trabalho voluntário realizado em Rio Preto ajuda dependentes químicos no árduo processo de libertação do vício. Não se trata de uma solução mágica, alertam os especialistas, mas de um aliado em fazer as pessoas se libertarem do alcoolismo, mal que atinge 5,8 milhões de brasileiros, 12,7% apenas na região Sudeste.


De forma voluntária, a psicóloga Sandra Elena Carósio realiza sessões de hipnose contra a dependência. O trabalho, iniciado em novembro do ano passado, ajudou pelo menos 20 pessoas a se livrar da bebida.


Sandra Elena aplica a técnica de hipnose em dependentes que frequentam a Associação Anti-Alcoólica da Alta Araraquarense, no Jardim Urano, zona sul de Rio Preto. Ela explica que a técnica de hipnose consiste na mudança de foco do paciente para ele ficar suscetível a sugestões. Para isso, é necessário que a pessoa modifique o seu estado de consciência.


“A hipnose tradicional utiliza objetos em movimentos circulares ou bilaterais para o indivíduo relaxar e entrar em uma frequência diferente. Na hipnose erickssoniana, que aplico, utilizo apenas a voz para induzir a pessoa ao transe. É como se ela estivesse dormindo, porém consciente”, explica a psicóloga.


Quando o paciente entra neste estado de transe, diz Sandra Elena, é possível “enxergar” o inconsciente dele, onde ficam 98% dos registros de tudo aquilo que já viveu. “Com isso, chegamos a lugares e situações que desencadearam o mal, seja um trauma, vício ou doença de cunho psicológico.”


Após a pessoa entrar em estado de transe, a psicóloga inicia uma pequena entrevista. Pergunta como ele se sente, onde está e quando começou seu vício. Através das respostas, ela vai guiando o paciente para ele contar, em detalhes, as situações que estão afetando o seu dia-a-dia.


“Assim que a pessoa enxerga e revive essa situação, faço com que volte do transe. Daí começamos a segunda parte do tratamento. Converso com ela e pergunto se lembra do que viu ou não. Se a pessoa lembrar, eu enumero todos os problemas que o álcool tem causado na vida dela. Depois ela relaxa novamente e conto uma história, que será sobreposta à aquela situação. É como se eu mudasse o conteúdo daquele arquivo, mas salvasse no mesmo local. Quando o cérebro buscar essa memória, ela estará lá, porém modificada”, afirma Sandra.


Mensagens


Outra possibilidade de tratamento são as induções durante a hipnose. “Há pessoas menos suscetíveis ao tratamento anterior, então durante o transe, vou enviando mensagens para o subconsciente dela. Falo, por exemplo, que ao tomar o primeiro gole de qualquer bebida alcoólica ela se sentirá enjoada, com nojo. Falo também que ao beber ela vai ficar triste e que apenas coisas ruins acontecerão com ela. Com isso, ao voltar do transe, a pessoa estará sugestionada a não ingerir mais bebidas para que essas coisas não aconteçam com ela.”


Um aliado


Para o médico especialista em tratamento de dependentes químicos, Toufik Rahad, de Rio Preto, a hipnose pode ser, sim, um aliado no combate ao alcoolismo, desde que o paciente queira se tratar. “Não conheço muito bem o assunto, mas tenho certeza de que funciona como terapia aliada. Aqui na clínica, recomendo uma combinação de medicamentos para o tratamento do vício, e os resultados são bastante expressivos e animadores”, diz o médico.


Rahd explica que o álcool é o grande vilão da sociedade, e a maioria dos pacientes busca apoio para se livrar desse vício, que está enraizado na cultura brasileira. “Um paciente me contou que ao completar 13 anos, o pai lhe deu um maço de cigarros, um isqueiro e ainda uma garrafa de pinga. E ainda disse: 'agora que você já é homem, precisa beber e fumar, homem que é homem faz isso'”, relata.


A clínica de Rahd é frequentada por dependentes de todo os cantos do País e do mundo. Em média, atende 40 pacientes por dia, a maioria vítima do álcool. Desses, todos os dias são 10 novos casos, outros 30 são retorno. “É uma epidemia. Precisamos tratar não só o dependente como a família. Temos aqui uma psicóloga que também auxilia no tratamento”, afirma o médico.

Johnny Torres Pedro Pereira da Silva, 59 anos, presidente de associação antialcoólica, diz já ter sofrido com o alcoolismo; hoje, liberto, ele auxilia outros a se recuperar

Em transe, a busca da libertação do vício

O caminhoneiro Antônio dos Santos, 60 anos, apelou para a hipnose para se livrar da bebida. Dependente de álcool há 35 anos, ele já ficou seis anos sem beber, mas teve uma recaída. “Só parei porque desenvolvi uma doença no rim e precisei de um transplante. Para fazer a cirurgia não poderia ter uma gota sequer de álcool no sangue. Parei, fiz a cirurgia e voltei a beber.” Santos está há quatro meses abstêmio e fazendo hipnose. Todo sábado, ele frequenta as reuniões da Associação Anti-Alcoólica da Alta Araraquarense, no Jardim Urano. “A hipnose aliada à reunião têm dado resultado. Não sinto mais vontade de beber quando escuto os relatos dos meus amigos. Estou percebendo os males que a bebida faz a mim e à família. Além disso, ouvir os conselhos da psicóloga também nos ajuda muito. Dá uma sensação de paz, de tranquilidade e nos mostra de maneira clara todas as nossas perdas causadas pelo vício”, afirma. Santos conta que durante as viagens de caminhão sempre estava embriagado. “Eu acordava cedo, às 9h já estava tomando a primeira dose, algumas horas depois já havia tomado duas garrafas de cerveja. Comprava a marmita e jogava fora, preferia a bebida.” No momento da sessão, o caminhoneiro afirma que se sente muito bem, e de maneira espontânea conta todos os problemas e os transtornos do vício. “É a hora que eu consigo desabafar, colocar pra fora e me entender melhor. Quando volto estou sereno e ciente de que não posso tomar o primeiro gole.” Acidente de trânsito, brigas com a mulher, separação, falta de dinheiro, de moradia, sentimento de vergonha dos filhos e vontade de se matar. Esses foram apenas alguns dos problemas que o álcool trouxe para a vida do aposentado Pedro Pereira da Silva, 59 anos, que hoje é presidente da associação antialcoólica do Urano. Há 16 anos longe do álcool, ele ainda não se sente curado. “Essa é uma doença da qual não temos alta, precisamos de tratamento todos os dias. E jamais esquecer de não tomar a primeira dose e nem de todas as tristezas da prisão que o álcool traz para a nossa vida”, diz. Silva se separou de duas mulheres devido ao álcool. Pai de dois filhos, hoje ele cuida também de três netos. “Minha vida tomou outro significado desde que conheci a associação. Consegui me livrar da bebida e recuperei tudo o que perdi ao longo de 23 anos no balcão dos bares. Já bati nas minhas mulheres, já xinguei meus filhos, já causei acidentes de trânsito e já tentei me matar. Graças a Deus, consegui me recuperar. Retomei as rédeas da minha vida e hoje sou um homem livre.” Dramas comunsAs histórias são praticamente iguais. Perdas, sofrimento, dor, angústia, problemas familiares e profissionais. Só mudam os personagens. Os endereços são diferentes, mas a dor é semelhante. Nos olhos, há sempre uma marca da tristeza que com o passar dos anos vai diminuindo. João, que prefere ser chamado apenas de João de Barro, 38 anos, foi despejado da casa dos pais por causa da bebida. Atualmente, ele está há 9 meses abstêmio, morando provisoriamente na sede da associação, no Solo Sagrado. “Eu renasci aqui. Encontrei meu chão. Estava perdido, não tinha mais como me levantar, até que alguém me deu a mão. Hoje eu sou outra pessoa. Acredito em mim, tenho objetivos e vontade de viver. Muito diferente de antes. A partir da semana que vem, quero começar o tratamento com a hipnose para ajudar na minha recuperação”, conta o servente.

Johnny Torres Psicóloga Sandra Elena Carósio, que aplica técnica de hipnose: o dependente não percebe ou não aceita que está doente

Trinta pessoas por dia procuram ajuda

Por dia, cerca de 30 pessoas em Rio Preto procuram ajuda para tratar o vício do álcool. Os números não são oficiais, apenas estimativas, uma vez que o tratamento é voluntário e oferecido por associações, igrejas e pelos Centros de Apoio Psicossociais (Caps) do município. Atualmente, existem nove locais que oferecem ajuda voluntária em Rio Preto. Cada um dos locais funciona em um dia da semana, sempre a partir das 20 horas. Os atendimentos nessas associações varia bastante, cada reunião recebe em média 20 pessoas que buscam socorro. Aproximadamente 1,8 mil dependentes são atendidos nos nove centros e mais 300 pacientes todos os meses atendidos pelos Caps.O tratamento nas associações consiste em reuniões, em que pessoas que passaram pelo problema do vício fazem seus relatos. Durante o programa, os participantes são orientados a seguir os 12 passos contra o alcoolismo. E, principalmente, a não tomar o primeiro gole. “A diferença principal entre o alcoólatra e a pessoa que bebe socialmente é o limite. O alcoólatra não consegue parar de beber. Ele continua bebendo tudo o que vê pela frente. Já a pessoa que bebe socialmente consegue parar ao se sentir embriagada, independentemente da quantidade ingerida”, explica a psicóloga Sandra Elena Carósio. Normalmente o dependente não percebe ou não aceita que está doente e quem procura ajuda é um membro da família, seja a mulher, o marido, o filho, ou os pais. “Através desse pedido de ajuda, convidamos a pessoa a frequentar as reuniões da associação. E nosso objetivo é desde o primeiro dia fazer com que ela entenda a importância do tratamento”, afirma o presidente da instituição, Pedro Pereira da Silva. Além das associações, a Prefeitura disponibiliza atendimento aos pacientes através dos Centros de Atenção Psicossociais. Pesquisa realizada pelo poder público mostra que em 2011 (dado mais atual) foram realizados 4170 atendimentos. Destes, 17% eram mulheres e 83%, homens. Do total de atendimentos, os transtornos mentais e comportamentais decorrentes do uso de álcool correspondem a 40%; cocaína/crack a 38%; múltiplas drogas a 16%, maconha a 5%); outras substâncias psicoativas (1%).As pessoas afetadas pelo álcool e outras drogas devem procurar os serviços de referência para tratamento, que são os Caps AD Vila Clementina e Caps AD III Engenheiro Schmitt. Além disso, a Secretaria possui cadastro das unidades municipais de saúde mental, instituições hospitalares com leitos para o SUS, comunidades terapêuticas e clínicas que procuram registro na Vigilância Sanitária. Atualmente, 90 pessoas estão em tratamento nos Caps contra o alcoolismo.
Os 12 passos (para os Alcoólicos Anônimos):
- Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas- Viemos a acreditar que um poder superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade- Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma em que O concebíamos- Fizemos minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos- Admitimos perante Deus, perante nós mesmos e perante outro ser humano, a natureza exata de nossas falhas- Prontificamo-nos inteiramente a deixar que Deus removesse todos esses defeitos de caráter- Humildemente, rogamos a Ele que nos livrasse de nossas imperfeições- Fizemos uma relação de todas as pessoas que tínhamos prejudicado e nos dispusemos a reparar os danos a elas causados- Fizemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando fazê-lo significasse prejudicá-las ou a outrem- Continuamos fazendo o inventário pessoal e, quando estávamos errados, nós o admitíamos prontamente- Procuramos, através da prece e da meditação, melhorar nosso contato consciente com Deus, na forma em que O concebíamos, rogando apenas o conhecimento de Sua vontade em relação a nós, e forças para realizar essa vontade- Tendo experimentado um despertar espiritual, graças a esses passos, procuramos transmitir essa mensagem aos alcoólicos e praticar esses princípios em todas as nossas atividades
MALEFÍCIOS DO ÁLCOOL:
O uso de álcool afeta todo organismo, causa danos principalmente ao sistema digestivo de forma geral. Podem ocorrer gastrites, úlceras, inflamação do esôfago, pancreatite, cirrose hepática e deficiência nutricional, hipertensão arterial e outras doenças do aparelho cardiocirculatório, agravos ao sistema nervoso como quadros de epilepsia, lesões de nervos periféricos e geniturinário (pode causar impotência sexual, especialmente no homem). O uso de álcool por mulheres grávidas é muito nocivo e pode levar a malformações no feto com retardo mental, malformações no coração, membros, crânio e face (síndrome alcoólica fetal). A gravidade destes problemas depende das condições gerais de saúde do usuário, também da quantidade e ainda do tipo de bebida alcoólica que for ingerida Fonte - Coordenação de Saúde Mental/Secretaria de Saúde de São José do Rio Preto
TESTE
Responda a essas perguntas e verifique se você precisa de ajuda para se livrar do álcool:1. Já tentou parar de beber por uma semana (ou mais), sem conseguir atingir seu objetivo? Sim Não 2. Ressente-se com os conselhos dos outros que tentam fazê-lo parar de beber? Sim Não 3. Já tentou controlar sua tendência de beber demais, trocando uma bebida alcoólica por outra? Sim Não 4. Tomou algum trago pela manhã nos últimos doze meses? Sim Não 5. Inveja as pessoas que podem beber sem criar problemas? Sim Não 6. Seu problema de bebida vem se tornando cada vez mais sério nos últimos 12 meses? Sim Não 7. A bebida já criou problemas no seu lar? Sim Não 8. Nas reuniões sociais em que as bebidas são limitadas, você tenta conseguir doses extras? Sim Não 9. Apesar de prova em contrário, você continua afirmando que bebe quando quer e para quando quer? Sim Não 10. Faltou ao serviço, durante os últimos 12 meses, por causa da bebida? Sim Não 11. Já experimentou alguma vez ‘apagamento’ (esquecer o que fez) durante uma bebedeira? Sim Não 12. Já pensou alguma vez que poderia aproveitar muito mais a vida, se não bebesse? Sim Não QUAL FOI A CONTAGEM?
Onde encontrar ajuda:
AJP II - Associação Anti Álcool João Paulo II- Rua Generosa Pinheiro, 371 - João Paulo II- Telefone - 3212-2440 / 99754-6442- Reuniões às segundas-feiras, às 20 horas Acerp - Associação Anti Alcoólica de Rio Preto- Avenida Alberto Andaló, 2611 - Centro- Telefone - 3222-1103 / 99110-3429- Reuniões às terças-feiras, às 20 horas Cerea - Centro de Recuperação do Alcoólatra- Rua Virgílio Dias Castro, s/nº - Jardim São Deocleciano- Telefone - 3215-7841 / 99713-3066- Reuniões às quartas-feiras, às 20 horas A.A.A.A.A. - Associação Anti Alcoólica da Alta Araraquarence- Rua Maria Inocência de Jesus - Solo Sagrado- Telefone - 99209-4979- Reuniões às quintas-feiras, às 20 horas Arpasa - Associação de Reabilitação e Prevenção do Alcoolismo- Rua Valdecir Duran, 668 - Jardim Santo Antônio- Telefone - 3012-7796- Reuniões às sextas-feiras, às 20 horas ARA - Associação de Recuperação do Alcoólatra- Rua Maestro Quaranta, 78 - Vila Anchieta- Telefone - 3012-5457- Reuniões aos sábados, às 20 horas Alcoólicos Anônimos (Igreja Santa Terezinha do Menino Jesus) - Rua Osvaldo Aranha, 585, Alto da Boa Vista- Reuniões às terças e quintas, a partir das 20 horas Alcoólicos Anônimos (Casa Paroquial da Vila Maceno) - Rua Alberto Sufredini, 1.891, Vila Maceno- Reuniões aos sábados, sempre a partir das 19 horas CAPS AD Vila Clementina- Telefone - 3224-0728, de segunda à sexta-feira, das 8h às 17h CAPS AD III Engº Schmitt- Telefone - 3808-1044, de segunda à sexta-feira, das 7h às 19h Quer ler o jornal na íntegra? >> Acesse aqui o Diário da Região Digital

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