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Uma seleção de cronistas e articulistas entra em campo para bater bola diariamente com o leitor. O time conta com jornalistas, professores, bibliotecária, médico, escritor, promotor de Justiça e um juiz

Quinta-feira, 05.10.17 às 00:00 / Atualizado em 04.10.17 às 19:57

O país do carnaval

Romildo Sant’Anna
Romildo Sant’Anna

Em O País do Carnaval (1931), de Jorge Amado, diz o protagonista Paulo Rigger: ‘Só me senti brasileiro duas vezes. Uma no carnaval, quando sambei na rua. Outra, quando surrei Julie, depois que ela me traiu’. A frase é lembrada pelo antropólogo Roberto DaMatta em Carnavais, Malandros e Heróis (Rocco, 1997). Parece consenso que os carnavais alegorizam fragmentos de nossos costumes, quiçá os mais rombudos. A estranhar a festança, bastante exótica aos olhos ‘de fora’, Rigger se desilude e volta à Europa. Viu-se logo batendo em mulher e sambando à beça. Mas se sentiu desconfortado com ‘a tragédia de descobrir-se como um brasileiro’, escreve DaMatta. Triste, né?

A carnavalização associa-se a aspectos da malandragem que se finge ignorar. Chico Buarque compôs a marcha ‘Rio 42’ para a Ópera do Malandro (1985), filme de Ruy Guerra: ‘Se a guerra for declarada em pleno domingo de carnaval, verás que um filho não foge à luta, Brasil recruta o teu pessoal... Se a guerra for declarada, a rapaziada ganha na moral, se aliste, meu camarada, a gente vai salvar o nosso carnaval’. A letra de Chico, a evocar o Hino Nacional, parece esmiuçar essa ‘sabedoria desencantada’ da vida de que fala Antonio Candido no ensaio Dialética da Malandragem (1970). O malandro é um parvo buscador de vantagens, sem limites entre o público e o privado.

Carnavais, permissividades consentidas. Um montão de gente se trasveste em foliões e folionas. As ‘folias’, vale lembrar, nos vieram como antigas danças ibéricas, acompanhadas de cantares ao som de violas, adufes e pandeiros (as Folias de Reis). Mas tomaram feições de farra impessoal, infantil e ruidosa. Lembra o frenesi de escolares na hora do recreio. Neste 2017 tivemos: quatro dias de ‘esquenta’, os cinco do carnaval-espetáculo midiático e mais quatro de pós-carnavais. Treze dias. Na Paulista, no domingo de quaresma em despedida da festança, e para pularem no bloco Pipoca da Rainha, deram-se às folionas 18 mil apitos para denunciarem o assédio dos afoitos. Que rigor carnavalizado!

É rito catártico, procissão em delírios, explosão de desejos, fuga do real? Ou tudo guisado num velho tacho da cultura? Nos carnavais, folga o ilibado Congresso, folgam os vultos-pop do Supremo e as leis vão aos retiros espirituais. Servidores públicos folgam com a bênção dos alcaides. Ante os exemplos de cima, folgam os marreteiros, aspones e a construção civil. E que se danem a miséria, as tecnologias do pão amanhecido, diplomas de araque, impostos e taxas. Valem mesmo as Folias de Momo e, já nos outubros, que tudo esteja nos trinques com vistas aos bizarros enredos, às verbas cavoucadas sei lá onde, o samba fajuto e fantasias. No mais, ‘segue o jogo’, exclamaria, o locutor do futebol.

Queime-se o cronista herege. No Rio, há 80 anos, o livro de Amado foi queimado em praça pública.

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