Entre Livros e Palavras

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Patrícia Buzzini

Tradutora e Doutora em Estudos Linguísticos pela Unesp patrbuzzini@hotmail.com

Domingo, 09.07.17 às 22:56

Escritora Maria Valéria Rezende fala sobre o papel da literatura no mundo atual

Patrícia Reis Buzzini
Divulgação
Quarenta dias valeu o prêmio de Livro do Ano no Jabuti à escritora.

            Maria Valéria Rezende é escritora e missionária religiosa, com uma vasta experiência em projetos de educação popular e formação de educadores. Na literatura, explorou diferentes universos linguísticos, com obras publicadas na categoria adulta, infantil e infanto-juvenil. Em 2015, o romance “Quarenta dias”, citado no Blog Entre Livros e Palavras, recebeu a indicação de Livro do Ano de Ficção no Prêmio Jabuti. Este ano, recebeu o Prémio Casa de las Américas pelo livro “Outros Cantos”. A convite do Blog Entre Livros e Palavras, a autora reservou-nos um tempinho para falar um pouco mais a respeito de sua vida e obras. Bom demais, não é?

BLOG ENTRE LIVROS E PALAVRAS. Como você concilia a vida religiosa e a carreira de escritora? Há conflitos?

MARIA VALÉRIA REZENDE.  Bem, na verdade eu não considero minha atividade como escritora como uma carreira. Escrevo como dá e quando dá. Comecei a publicar ficção e poesia (apenas haikais) tardiamente, às vésperas dos 60 anos, e por acaso, sem que eu nunca tivesse pensado nem planejado uma "carreira". Depois do primeiro livro, aquilo começou a fluir e fui escrevendo contos e romances, em grande parte estimulada por um grupo que criamos aqui, o Clube do Conto da Paraíba, que já tem 13 anos de vida e teima em continuar. Nunca sei se o que estou escrevendo será meu último livro ou se virão outros, porque, como a imensa maioria de mulheres que escrevem, nós temos sempre alguém de quem cuidar. No meu caso, como membro de uma comunidade, é como se eu tivesse duas grandes famílias, a minha família de sangue e a família religiosa, então há ainda mais de quem cuidar e o "tempo livre" pra escrever é ainda mais comprometido. Posso imaginar muitas histórias, até bem facilmente, mas o trabalho braçal de cutucar o teclado e materializar em texto o que imagino é impossível de planejar. 

 

BLOG. Quais são as suas referências criativas? Você consegue manter uma rotina de leituras? 

MARIA VALÉRIA. Comecei a ler antes mesmo de ser alfabetizada. Sou mais velha do que a televisão 10 anos. Os serões da minha família consistiam grandemente em sentar-se na varanda e dizer ou ler poemas, ler contos ou romances, um capítulo por noite. E não eram poemas nem narrativas para crianças. Eu ouvia tudo aquilo com muita atenção. Desde que aprendi a ler por mim mesma, logo cheguei a uma média de mil páginas por semana que conservei como necessidade fundamental até recentemente, quando problemas de visão tornaram minha leitura mais lenta e tive de dividir o mesmo tempo entre a leitura e a escrita. Mas nunca leio menos de duas horas por dia. De tudo! Atualmente já quase não releio o que já li, prefiro acompanhar o que se produz de novo, especialmente no Brasil. Mas minha grande referência para escrever é o que me entra e entrou pelos meus cinco sentidos durante a vida toda.

 

BLOG. Você tem vários livros publicados na categoria infantil e infanto-juvenil. Como foi a transição para a literatura adulta? Como você lida com esses diferentes universos linguísticos?

MARIA VALÉRIA. Comecei com literatura para adultos. A literatura infanto-juvenil foi que veio depois, embora eu tenha ganhado primeiro um Jabuti na categoria infantil, o segundo na juvenil e só recentemente prêmios para meus livros de adultos, o que dá a impressão que comecei pelos infanto-juvenis. 

 

BLOG. Em “Quarenta dias”, você traz várias epígrafes de obras contemporâneas, o que amplia as possibilidades de leitura do romance e cria uma espécie de “diálogo” entre autores. Como foi o processo se seleção dos trechos?

MARIA VALÉRIA. Enquanto estou escrevendo um livro, tudo o que leio, inclusive posts no facebook, que "conversa" com meu texto, eu anoto num arquivo no computador. Em geral, dali depois escolho algumas epígrafes para meus livros. No caso do 40 dias, nem são propriamente epígrafes, mas fazem parte do texto, como anotações que a própria personagem-narradora vai fazendo ao longo de sua travessia pelas ruas de Porto Alegre, em papeis que apanha pelas ruas e que depois cola no seu caderno de desabafo que é a natureza do texto. Quando terminei de escrever 40 dias, tinha mais de 500 anotações. Então usei como critério para escolher as que entrariam no livro privilegiar mulheres e escritores de "fora do eixo", especialmente aqui do Nordeste, que precisam ser mais conhecidos para o bem da literatura brasileira.

 

BLOG. Você afirma, em entrevistas, que passou alguns dias perambulando pelas ruas de Porto Alegre para agregar experiências para a composição do romance. Você se inspirou em pessoas reais para compor alguns de seus personagens? Houve algum momento marcante nessa experiência?

MARIA VALÉRIA. Todos os meus personagens são inspirados em pessoas reais, mas não uma simples transposição de alguém que conheço para dentro do meu texto.  Às vezes um personagem é uma síntese de toda uma categoria de pessoas com quem convivi e convivo, às vezes apenas provocados por alguém de quem sei muito pouco mas me sinto instigada a tentar adivinhar ou inventar o resto. É assim o romance que estou agora acabando de escrever, "inventado" a partir de uma carta de uma mulher real do séc. XVIII que encontrei no Arquivo Ultramarino de Lisboa há mais de 30 anos.

 

BLOG. Em “Quarenta dias”, a protagonista procura um objetivo de vida em meio ao caos e à superficialidade de uma sociedade de consumo. Qual é a sua visão a respeito dessas questões?

MARIA VALÉRIA. Parece-me evidente que o capitalismo na forma que tomou hoje precisa de uma sociedade consumista, sempre ávida de mais coisas, manipulável através das novidades e modas, e o mais padronizada possível. Isso é a negação do desenvolvimento original de cada pessoa. Ainda creio que, além de inúmeras iniciativas, infelizmente muito pouco divulgadas, que buscam resgatar os modos de ser e relações mais humanizadas, a literatura e a arte em geral têm uma vocação para essa tarefa, cada vez mais urgente, de defesa dos diferentes modos de ser-se inteiramente humanos e não periféricos dos objetos e traquitanas que nos impingem.

 

BLOG. Como foi receber mais um prêmio, agora pelo seu livro mais recente, “Outros Cantos”? Qual é o assunto desse livro?

MARIA VALÉRIA. Esse prêmio foi especialmente grato para mim por vir justamente da Casa de Las Américas, de Cuba, com a qual durante muitos anos, indo e vindo, trabalhei em parceria num amplo programa de intercâmbio latino-americano de experiências de Educação Popular. Mas não me deslumbro muito com prêmios, pois já estive em júris de prêmios literários e sei que o resultado final é sempre uma questão de "milímetros", pois não há régua e compasso para medir qualidade literária, e basta que se mude um membro do júri para que a escolha final seja diferente. 

 

BLOG. Você está trabalhando em algum projeto novo de publicação? Pretende continuar investindo em romances?

MARIA VALÉRIA.  No momento estou terminando um romance. O que virá depois, não sei. A vida e suas surpresas dirá.

 

BLOG. Qual mensagem você deixaria aos nossos leitores, em face do atual contexto político e social?

MARIA VALÉRIA. Que para conseguirmos refazer um país e um mundo humanos e vivíveis, é preciso, além de valores perenes, avaliação do passado para aprender da experiência e imaginação para criar o novo. Pra isso acho que a literatura tem uma contribuição preciosa e, portanto, ler é preciso!

 

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